quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Bruna

Bruna não se importava com ele.
Ele estava casado agora.
Mas pra ela não fazia diferença.
Aliás, ela até preferia assim.
Eles tinham ficado juntos poucas vezes. Sempre por iniciativa dela.
Ele foi uma conquista. A primeira. Um pequeno troféu que ela levou pra casa.
No começo até havia um certo interesse. Mas ele era tão centrado em si mesmo que ela se cansou.  Teve preguiça.
Serviu para duas ou três vezes. Ela gostou de ser a caçadora. De mandar nele.
Mas quando ele veio com aquela conversa do seu casamento, ela não se zangou. Viu o jeito de sair por cima. Não que ela se importasse.
Ele implorou que ela não fosse embora. Pediu em desespero que ela suportasse aquela situação.
Bruna não podia. Nem queria.
Hoje ela ri dele. Dos emails e mensagens de súplica. Ele diz que sente falta dela. Ela diz que sente falta dele.  Que quer ele só pra ela. Que arde de saudades. Que tem passado noites insones sofrendo de desejo e de lembranças.

Bruna não tem insônia.  

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Metáfora.

Sabe quando você está comendo uma salada de frutas mas quer mesmo aquele petit gateau ali do lado?
Você adora salada de frutas. 
Mas é uma salada. De frutas.
Frutas picadas, juntas, misturadas.
Ela fica ótima com sorvete, chantilly, creme de leite.
Mas você quer o petit gateau.
A salada de frutas é boa pra você. É saudável. Calorias controladas.
Mas aquele petit gateau de doce de leite ali do lado...
Vai te engordar, você sabe. Sabe o perigo que é dar a primeira colherada.
Você fica olhando, pensando, considerando. Resistindo.
Por enquanto.

Por quanto tempo?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Tem carta pra vc

Você me deixou com fome.
Abriu em mim um apetite que guardei esquecido.
Tenho fome de você agora.
Sabe aquela coisa que a gente experimenta um dia, gosta tanto que até passa mal de tanto comer?
Como quando a gente toma uma bebida boa demais, daquelas que não dá vontade de parar, e que quando circula no sangue, muda todo o jeito que a gente sente, vê, se comporta e até pára de pensar um pouco..
Quero você. E não quero.
Quero te ajudar a cumprir as promessas que você me fez. Quero que você desarrume meu cabelo, me abrace até eu pedir pra você parar, me encoste naquela parede da sala. Da sua sala.
E não quero. Porque se eu te deixar começar não vou conseguir parar.
Quero te impedir. E não quero.
Quero que você não me peça licença, quero que você entre sem ter sido convidado, quero que você durma sentindo o cheiro do meu perfume, quero que acorde lembrando do zíper do meu vestido florido.
Quero que você abandone o que conhece, que aprenda nosso idioma, que me mande mensagem no meio da noite porque te tirei o sono.
Quero tudo isso. E quero você. Porque há muito não sentia tanta fome. Essa fome.
Quero te dizer tudo isso. E não vou. Porque quero que você arranque essas palavras de mim. À força. Quero que se aposse de mim, da minha vontade, dos meus dias, das minhas noites.
E você pode. Se quiser.






quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Anna

Naquela manhã  Anna  fechou a porta de casa bem devagar..
Queria que aquele momento não acontecesse nunca. Vê-lo entrar pela última vez no elevador do hall do seu prédio.
Não houve um adeus. Não falaram sobre isso. Mas ela sabia que depois dessa noite não haveria mais expectativa. Não teriam mais sobressaltos cada vez que seus olhares se cruzassem. Não haveria mais calafrios ao sentir as mãos pequenas segurando com força na sua cintura.
Sentiu uma lágrima valente escapando pelo canto do olho.
Ele era bom demais pra ser verdade. Ou pelo menos para ser dela.

Anna sempre soube que ele tinha sido um presente. Em um momento de pouca fé o universo tinha colocado aquele par de olhos verdes na sua frente como que para desafiá-la a acreditar que existiam pessoas assim. 
Ele existiu.  Foram poucas as vezes em que eles se viram, se sentiram, se tocaram e explodiram de desejo.  E ela sempre teve a sensação de quero mais, frustração, vontade de um futuro impossível. Ele era bom demais pra ser verdade. Ou pelo menos para ser dela.

E agora ele tinha ido embora pela última vez. Ela sabia disso. Sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Mas sempre fantasiou que ele encontraria uma menina da idade dele, 12 anos mais jovem que ela mesma. Imaginava o dia em que ele se apaixonaria loucamente por essa menina e que ela seria como ele. Feliz, franca, inteira. Tudo o que Anna não conseguia ser.

Ele foi embora. E com ele levou a leveza, a esperança, a juventude, a coragem. Anna queria ser como ele. Tinha inveja dele. Da pouca idade. Da muita ousadia. Da simplicidade. Até da falta de consciência que ele tinha de si mesmo. Do quanto ele era especial. Diferente. Anna queria ser como ele. Queria ser ele. Ele é tudo o que ela queria ser e não conseguia. Estar com ele era uma montanha-russa de sentimentos. Inveja, cobiça, desejo, felicidade, orgulho, paixão. Tudo misturado.

E agora Anna assiste a tudo pelo computador. Assiste a vida dele sem  ela. Assiste a vida que ela queria que fosse a dela. Assiste a vida dele que não tem mais o espaço dela.

Anna sabia que isso acabaria logo. Ele era bom demais pra ser verdade. Ou pelo menos pra ser dela. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Coming back - no explanations

Yo non creo en brujas pero que las hay las hay.
Eu não acredito em contos de fadas também.
Por que eles não existem mesmo!